COPA AZUL IMOBILIARIA DIGITAL
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Há cinquenta anos, Copacabana era o bairro dos cinemas. Não como ideia — literalmente. Assistir a um filme em Copacabana era experiência estrutural da adolescência carioca. Ao sair da sessão, você dava de cara com o mar. Ou entrava em uma lanchonete elegante. Ou caminhava entre pontos de encontro fervilhantes de vida.
Hoje, apenas um cinema funciona no bairro.
A história desse declínio não é apenas sobre cinema. É sobre transformação urbana, sobre escolhas econômicas, sobre como uma forma de lazer — que foi central à vida cultural de uma cidade — desapareceu em poucas décadas.
A Era de Ouro: Copacabana Como Capital do Cinema (1930-1960)
A história dos cinemas em Copacabana começou em 1932. Nair de Teffé, artista e viúva do Marechal Hermes da Fonseca, economizou para construir um edifício de 4 andares e abrir um cinema com o nome de sua companhia teatral — Cinema Rian. O prédio ficava na Avenida Atlântica, quase esquina com Constante Ramos.
Nair explorou pessoalmente o cinema até fazer parceria com Luiz Severiano Ribeiro em 1946, consolidando a operação. O Cinema Rian tinha 1.130 lugares originais e oferecia som espetacular (para a época) e telas gigantes. Era luxo assistir a um filme e, quando saía, ver o Atlântico.
Mas o Rian não foi isolado. Copacabana explodia em cinemas. Cada um promovia experiência especial. O Metro e o Art-Palácio tinham quase mil lugares cada. O Ritz foi inaugurado em 1938. O Roxy, também de 1938, na esquina com Bolívar. O Caruso, inaugurado em 1954. Cinema Alvorada, Paris Palace (depois Cinema 1), Riviera (depois Cinema 2), Royal (depois Holiday), Alaska, Cine Flórida, Art Copacabana, Cine Bruni.
Copacabana possuía mais de 40 salas de cinema meio século atrás. Eram quase vizinhos e viviam lotados.
Cinema Como "A Maior Diversão" (1940-1970)
Na década de 1940, a propaganda da maior rede de salas de cinema do Rio afirmava categoricamente: "Cinema é a maior diversão." E era verdade — não apenas pela qualidade dos filmes, mas porque o cinema funcionava como ponto de encontro social. Em Copacabana, isso era particularmente evidente. O Cinema Rian, por exemplo, foi palco do Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro na década de 1960, consolidando o bairro como centro cultural de excelência.
O Primeiro Sinal de Declínio: Televisão e Economia (1960-1980)
A crise chegou primeiro aos subúrbios. A televisão e sua programação audiovisual gratuita, inclusive com filmes, começaram a roubar público dos cinemas. Mas chegou também à Zona Sul, progressivamente.
O declínio não foi catastrófico de imediato. Alguns cinemas resistiram. O Art-Palácio Copacabana foi um dos mais duradouros, com quase 50 anos de funcionamento.
Mas entre meados dos 1970 e 1980, a matemática mudou:
Em 1975, o Cinema Rian pegou fogo — incêndio que o danificou permanentemente. Quando reabriu, havia sido reformado e reduzido para 922 assentos. Oito anos depois, em 1983, foi demolido. O lugar que iniciou a era de cinema viraria... hotel. Hotel Pestana, para ser preciso.
Outros cinemas viraram shopping-center, hotel, lojas de departamentos.
Desaparecimento Quase Completo (1980-2010)
A dinâmica era brutal: cada prédio que fechava era oportunidade de imobiliária pagar pela demolição e reconstrução. Lucro maior estava em apartamento, loja comercial, shopping — não em entretenimento.
Por volta de 2010, Copacabana tinha perdido praticamente todos os cinemas de rua. Uma era se finda.
O Último Sobrevivente: Cine-Joia (1969-Atual)
O Cine-Joia, inaugurado em 1969 como Cine Hora, permanece. Só que não como ele era.
Está localizado no subsolo de uma galeria comercial. Não tem vista para o mar. Não é ponto de encontro — é custo para imobiliária que mantém por inércia ou benemerência. Sua programação é mínima comparada aos dias de glória de Copacabana.
O Joia é memorial vivo de uma era que virou museu. Poucas gerações agora conhecem a sensação de sair de um cinema em Copacabana com o Atlântico à frente.