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Turismo em Copacabana e Como Airbnb Revolucionou o Mercado de Hospedagem
Publicado em 14/Out/2026
Autor: Rogerio vasconcellos Granthon

A praia de Copacabana tem origem no início do século XX, período em que começaram os primeiros trabalhos de saneamento. Mas a história do bairro como destino turístico — e posteriormente como revolucionário mercado de hospedagem — percorre mais de cem anos de transformações econômicas, urbanísticas e tecnológicas.

Compreender essa trajetória é essencial para entender não apenas por que Copacabana se tornou símbolo de turismo no Brasil, mas também como uma plataforma digital conseguiu transformar em menos de uma década uma indústria inteira.

O Início: De Vilarejo a Destino Elite (1900-1950)

No início do século XX, Copacabana era um vilarejo isolado de casarões à beira-mar e pescadores, mas já abrigava apartamentos deGravar e Continuar temporada para estrangeiros. A virada veio com a infraestrutura: o Túnel do Leme (1930) e o corte do Morro do Cantagalo (1938) melhoraram o acesso e impulsionaram a verticalização do bairro.

Entre 1930 e 1950, Copacabana viveu sua época de ouro, tornando-se símbolo de sofisticação, turismo internacional e vida noturna, com hotéis de luxo, cassinos e casas de espetáculo atraindo artistas, políticos e celebridades.

O Copacabana Palace (1923) foi o maior símbolo dessa era — pertenceu primeiro à família Guinle e, desde 1989, ao grupo Orient-Express Hotels —, ladeado por outros hotéis como Othon e Marriott. Nesse período, a hospedagem era dominada exclusivamente por hotéis, pensões e casarões alugados, modelo que se manteve por cerca de 70 anos.

Consolidação Institucional (1950-2000): A Era dos Hotéis

A partir dos anos 1950, Copacabana consolidou-se como principal destinação turística do Brasil. O calçadão com seu padrão de ondas — inspirado em padrões portugueses — tornou-se ícone visual.

Durante a época de ouro (1930-1950), hotéis e resorts controlavam praticamente toda a oferta turística. O modelo era clássico: proprietários (hotéis) operavam a hospedagem, definiam preços, gerenciavam operações e capturavam toda a margem de lucro. O turista não tinha opção além de hotéis — que ofereciam serviços, mas com preços premium. E esse modelo perdurou praticamente intacto até 2014.

A Chegada do Airbnb: Descentralização da Hospedagem (2014-2019)

O Airbnb chegou ao Brasil em 2014, mas seu impacto em Copacabana foi gradual. Durante os primeiros anos (2014-2019), a plataforma crescia, mas não desafiava seriamente os hotéis — ainda era vista como nicho, para "viajantes alternativos".

Tudo mudou a partir de 2019. Dados indicam que desde então, o bairro famoso pelo clássico da bossa nova experimentou crescimento explosivo de aluguéis por curta duração na plataforma.

A plataforma começou a capturar uma fatia significativa do mercado turístico através de um mecanismo simples: proprietários de apartamentos residenciais podiam alugar seus imóveis por temporada, capturando para si mesmos a margem que antes era exclusiva de hotéis.

O Boom: Números que Revelam a Transformação (2019-2026)

Os números atuais revelam a magnitude da transformação. Copacabana concentra a maior densidade de anúncios de aluguel por temporada por quilômetro quadrado do mundo. Ao todo, o bairro reúne 13.174 imóveis cadastrados no Airbnb, o equivalente a 30,94% de toda a oferta da cidade do Rio de Janeiro.

E enquanto Airbnb crescia, um fenômeno paralelo ocorria: a oferta de imóveis para aluguel de longa duração (residencial) encolhia. Dados do Secovi-RJ indicam que a oferta de imóveis para locação na Zona Sul caiu 27,5% em dois anos, enquanto os valores dos aluguéis registraram aumento médio de 17%, chegando a 50% em bairros como Copacabana.

Copacabana tem sazonalidade turística extrema, com eventos como Réveillon (4 milhões de pessoas na praia), Carnaval, shows (caso da Madonna em 2024, com 1,6 milhão de presentes) e Rock in Rio elevando as tarifas de 5 a 10 vezes; Réveillon e Carnaval sozinhos respondem por 25-30% da receita anual de muitos imóveis, criando uma dinâmica de investimento em que proprietários de apartamentos de airbnb conseguem fechar algumas semanas do ano a R$ 500-800 por noite, compensando os períodos de baixa demanda.

Regulação e Reação: 2025-2026

A pressão dos impactos levou o poder público a reagir. A Câmara Municipal do Rio de Janeiro discute o Projeto de Lei nº 372/2025, de autoria do vereador Salvino Oliveira (PSD), que propõe a regulamentação da hospedagem em imóveis residenciais intermediada por plataformas digitais.

Restrições judiciais sobre aluguéis de curto prazo são uma possibilidade, mas especialistas acreditam que as autoridades vão querer taxar as empresas de gestão de aluguel, que agora competem com os hotéis.

O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro já proferiu decisões que reconhecem a validade de restrições à locação por curta temporada em condomínios residenciais — abrindo espaço para síndicos proibirem Airbnb em seus prédios.

Perspectiva: O Que Vem Depois?

Copacabana vive momento de transição. O modelo Airbnb não vai desaparecer — o mercado estruturou-se em torno dele. Mas regulação virá, provavelmente através de:

  • Limitação do número de imóveis que uma pessoa pode alugar por temporada
  • Tributação mais rigorosa (IBS+CBS)
  • Restrições condominiais (síndicos proibindo aluguel)
  • Certificação/registro obrigatório de imóveis

Mesmo assim, Copacabana permanecerá destino turístico. A transformação de 1920s (de vilarejo a destino) foi estrutural e durou 30 anos. A transformação de 2010s (de hotéis a Airbnb) foi digital e levou 10 anos.

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